Jardim de Adônis
Thursday, January 25, 2007
PARABÉNS SAMPA
Nunca gostei de rótulos. Mas não posso negar a influência que Sampa tem sobre mim. Escrevo aqui nesse blogue e escrevi dois livros que precisam ser revisados - e tudo é fruto de Sampa. Os meus textos saltam todo o plot em busca dessa loucura que é sampa. Meus textos parecem que estão sempre correndo de um lado pro outro. Transmutam, transmutam-se. É mudança radical a todo momento. É loucura. É fragmento. Oroboro. Já detestei essa cidade. Hoje a amo veementemente. Tenho a minha família aqui. Colegas. Saio pouco de sampa. E quando saio quero logo voltar. Não caibo. Só caibo aqui: em Sampa. Nesse ventre que me gerou. Onde muito chorei. Onde muito curti. Onde meus avós de Córdoba vieram aportar. Nesse porto de pedra. Onde meu pai sonhou um mundo melhor lá de Lençóis - na Chapada Diamantina. Aqui tive o meu primeiro amor de minha vida. Tive outros amores algozes também. Tenho a minha Raquel que amo. Aqui onde fiz quase todos os meus estudos. Quero para sempre vicejar nesse mar de pedra de Sampa. Nesse cosmopolitismo sem fim. Onde todos os rios vêm desaguar. E que muitos, por outro lado, achincalham também. Amo essa cidade. E jamais a trocaria por nada dessa vida. Já sonhei com Nova Iorque, Frankfurt, Paris, Milão, Roma, Barcelona... Mas é aqui onde ancoro o meu delírio.Te amo Sampa. Você é tudo para mim. Amo a tua elegância. Amo a tua arrogância. E o teu assomo. Amo as tuas antenas. Esse turbilhão de vozes a espargir o teu canto. Amo o teu amplexo para com os sonhadores desafortunados que por aqui todos os dias chegam demandando as tuas riquezas. E tu sem seres insolente ainda os beija! Sampa! Cidade deslimítrofe. Sem sair daqui percorro o mundo. Sou um cidadão paulistano. Sou sim a tua arrogância e o teu assomo. Sou este teu amplexo. Aqui conheci, por ti, a língua dos helenos. E onde mais eu a conheceria? É aqui em teu mosteiro que o papa também virá se deitar. Hoje, Sampa, - oh, por favor, não me deixes - quero apenas curtir essa tua grande grande grande grandeza...
Nunca gostei de rótulos. Mas não posso negar a influência que Sampa tem sobre mim. Escrevo aqui nesse blogue e escrevi dois livros que precisam ser revisados - e tudo é fruto de Sampa. Os meus textos saltam todo o plot em busca dessa loucura que é sampa. Meus textos parecem que estão sempre correndo de um lado pro outro. Transmutam, transmutam-se. É mudança radical a todo momento. É loucura. É fragmento. Oroboro. Já detestei essa cidade. Hoje a amo veementemente. Tenho a minha família aqui. Colegas. Saio pouco de sampa. E quando saio quero logo voltar. Não caibo. Só caibo aqui: em Sampa. Nesse ventre que me gerou. Onde muito chorei. Onde muito curti. Onde meus avós de Córdoba vieram aportar. Nesse porto de pedra. Onde meu pai sonhou um mundo melhor lá de Lençóis - na Chapada Diamantina. Aqui tive o meu primeiro amor de minha vida. Tive outros amores algozes também. Tenho a minha Raquel que amo. Aqui onde fiz quase todos os meus estudos. Quero para sempre vicejar nesse mar de pedra de Sampa. Nesse cosmopolitismo sem fim. Onde todos os rios vêm desaguar. E que muitos, por outro lado, achincalham também. Amo essa cidade. E jamais a trocaria por nada dessa vida. Já sonhei com Nova Iorque, Frankfurt, Paris, Milão, Roma, Barcelona... Mas é aqui onde ancoro o meu delírio.Te amo Sampa. Você é tudo para mim. Amo a tua elegância. Amo a tua arrogância. E o teu assomo. Amo as tuas antenas. Esse turbilhão de vozes a espargir o teu canto. Amo o teu amplexo para com os sonhadores desafortunados que por aqui todos os dias chegam demandando as tuas riquezas. E tu sem seres insolente ainda os beija! Sampa! Cidade deslimítrofe. Sem sair daqui percorro o mundo. Sou um cidadão paulistano. Sou sim a tua arrogância e o teu assomo. Sou este teu amplexo. Aqui conheci, por ti, a língua dos helenos. E onde mais eu a conheceria? É aqui em teu mosteiro que o papa também virá se deitar. Hoje, Sampa, - oh, por favor, não me deixes - quero apenas curtir essa tua grande grande grande grandeza...
Wednesday, January 24, 2007
Ressentindo sem ressentimentos
Ontem li um pequeno ensaio de Edward Said sobre os intelectuais. São 4, 5 ou 6 que compõem o livro. É da Cia das Letras. Traduzido pelo M. Hatoum. Gostei da leveza do ensaio. E concordo em gênero, número e grau no que ele diz. Estamos nos ressentindo de intelectuais desse naipe, que falam o que todos querem ouvir. Uma voz de passarinho. Li o ensaio em duas partes. A primeira foi logo após a programação da cultura que julguei boa ontem - (Um documentário sobre Barbosa Sobrinho, e lá vemos Hélio Fernandes, Montuello, Brizola e Darcy Ribeiro. Nunca li nada de Darcy Ribeiro. Tenho os seus dois livros ainda lá nas minhas estantes parados. Sei que tem gente do meio que desgosta um pouco dele. Eu só o conheci por entrevistas, e achava-o genial. Aquela coisa das mulheres, fugir do câncer para escrever um livro, as índias e esse ufanismo que de uma certa forma se faz necessário -- depois Hermínio Belo de Carvalho). A segunda foi para aplacar uma insônia lá pelas três e pouco de la matina. E não quero entrar aqui em maniqueísmos tolos. Precisamos antes ver as sínteses do que as contradições. Eu que tanto aqui falo nessa contradição do Paradoxo do Zero.
Ontem li um pequeno ensaio de Edward Said sobre os intelectuais. São 4, 5 ou 6 que compõem o livro. É da Cia das Letras. Traduzido pelo M. Hatoum. Gostei da leveza do ensaio. E concordo em gênero, número e grau no que ele diz. Estamos nos ressentindo de intelectuais desse naipe, que falam o que todos querem ouvir. Uma voz de passarinho. Li o ensaio em duas partes. A primeira foi logo após a programação da cultura que julguei boa ontem - (Um documentário sobre Barbosa Sobrinho, e lá vemos Hélio Fernandes, Montuello, Brizola e Darcy Ribeiro. Nunca li nada de Darcy Ribeiro. Tenho os seus dois livros ainda lá nas minhas estantes parados. Sei que tem gente do meio que desgosta um pouco dele. Eu só o conheci por entrevistas, e achava-o genial. Aquela coisa das mulheres, fugir do câncer para escrever um livro, as índias e esse ufanismo que de uma certa forma se faz necessário -- depois Hermínio Belo de Carvalho). A segunda foi para aplacar uma insônia lá pelas três e pouco de la matina. E não quero entrar aqui em maniqueísmos tolos. Precisamos antes ver as sínteses do que as contradições. Eu que tanto aqui falo nessa contradição do Paradoxo do Zero.
PEQUENA NOTA SOBRE FICHTE
Vou aqui fazer uma pequena tentativa de diálogo com Fichte. Não tenho o livro em outra língua. Tenho a edição dos Pensadores, e acredito que esteja bem traduzido. Não sei se conseguiria também ler alemão. Acho que não. Nem com um dicionário. Mas vou procurar encontrar o texto. Não vou dizer que comecei a ler o livro em uma forma linear. Não! Li uma pequena introdução. Depois pulei para o que me interessa no momento. Muitos acham Fichte difícil. É difícil para quem não está acostumado com conceitos primários da lógica. Acho até um pouco chato. Há uma diferença entre chato e difícil. Vou direto na página 27 sobre O CONCEITO DA DOUTRINA-DA-CIÊNCIA. Pensei em convidar algumas pessoas para lermos Fichte step by step longe da academia. Mas depois desisti. Fiz uma leitura bem superficial, enquanto assistia à televisão. Antes quero falar que, pelo que me parece, Fichte tenta subsumir a lógica à Doutrina-da-Ciência. Mas vou ler com mais calma e com mais interesse, antes de me aventurar. Por hoje, vou me ater a um recorte da página 27 dos pensadores: ´...A = A é sem dúvida uma proposição logicamente correta e, na medida em que o é, sua significação é a seguinte: se A está posto, então A está posto...´Agora irei saltar para a página 44 dos pensadores;´1) A proposição A é A (tanto quanto A = A , pois essa é a siginificação da cópula lógica) é aceita por todos e aliás, sem a mínima hesitação; é reconhecida como plenamente certa e estipulada. Se porém alguém exigisse uma prova dela, ninguém se aplicaria a uma tal prova, e sim afirmaria que essa proposição é certa, pura e simplesmente, isto é, sem nenhum outro fundamento; e ao fazê-lo, sem dúvida com assentimento geral, está conferindo a si a faculdade de pôr algo pura e simplesmente.´ Faço notar que coloco o Paradoxo do Zero em colisão ao que diz Fichte acima. Noto que se se fizer a ressalva no PI, por conta da insuficiência da aritmética em justificar por que 1 x 0 = 0 --- Fichte estará em xeque em sua argumentação e todo o sistema superveniente fadado ao fracasso. Já fiz aqui também nesse blogue a distinção que penso existir entre A = A e A é A. Por ora não me estenderei mas vejo fissuras alarmantes na sistematização de sua Doutrina-da-Ciência. Como digo: O PZ é um problema em si e tangencia outros sistemas. É, na verdade, como em belo jogo de xadrez. E eu que jamais joguei xadrez nem coloquei um rei ou´ma rainha em aporia.
Vou aqui fazer uma pequena tentativa de diálogo com Fichte. Não tenho o livro em outra língua. Tenho a edição dos Pensadores, e acredito que esteja bem traduzido. Não sei se conseguiria também ler alemão. Acho que não. Nem com um dicionário. Mas vou procurar encontrar o texto. Não vou dizer que comecei a ler o livro em uma forma linear. Não! Li uma pequena introdução. Depois pulei para o que me interessa no momento. Muitos acham Fichte difícil. É difícil para quem não está acostumado com conceitos primários da lógica. Acho até um pouco chato. Há uma diferença entre chato e difícil. Vou direto na página 27 sobre O CONCEITO DA DOUTRINA-DA-CIÊNCIA. Pensei em convidar algumas pessoas para lermos Fichte step by step longe da academia. Mas depois desisti. Fiz uma leitura bem superficial, enquanto assistia à televisão. Antes quero falar que, pelo que me parece, Fichte tenta subsumir a lógica à Doutrina-da-Ciência. Mas vou ler com mais calma e com mais interesse, antes de me aventurar. Por hoje, vou me ater a um recorte da página 27 dos pensadores: ´...A = A é sem dúvida uma proposição logicamente correta e, na medida em que o é, sua significação é a seguinte: se A está posto, então A está posto...´Agora irei saltar para a página 44 dos pensadores;´1) A proposição A é A (tanto quanto A = A , pois essa é a siginificação da cópula lógica) é aceita por todos e aliás, sem a mínima hesitação; é reconhecida como plenamente certa e estipulada. Se porém alguém exigisse uma prova dela, ninguém se aplicaria a uma tal prova, e sim afirmaria que essa proposição é certa, pura e simplesmente, isto é, sem nenhum outro fundamento; e ao fazê-lo, sem dúvida com assentimento geral, está conferindo a si a faculdade de pôr algo pura e simplesmente.´ Faço notar que coloco o Paradoxo do Zero em colisão ao que diz Fichte acima. Noto que se se fizer a ressalva no PI, por conta da insuficiência da aritmética em justificar por que 1 x 0 = 0 --- Fichte estará em xeque em sua argumentação e todo o sistema superveniente fadado ao fracasso. Já fiz aqui também nesse blogue a distinção que penso existir entre A = A e A é A. Por ora não me estenderei mas vejo fissuras alarmantes na sistematização de sua Doutrina-da-Ciência. Como digo: O PZ é um problema em si e tangencia outros sistemas. É, na verdade, como em belo jogo de xadrez. E eu que jamais joguei xadrez nem coloquei um rei ou´ma rainha em aporia.
Tuesday, January 23, 2007
Por conta de um pragmatismo que sempre abominei, terei que trancar matrícula na FSB, porque irei fazer por esse mesmo pragmatismo o curso de filosofia em 10 meses em outra instituição, também católica. De uns tempos para cá passei por várias instituições católicas. As laicas foram poucas. E seriam meras coincidências? Passei pelos Salesianos, passei pela USJT, e antes já havia passado pela UMC que é ou era de um padre, depois PUC-SP, e de 2003 para cá mosteiro de São Bento e agora uma outra instituição católica. Só a USP parece-me laica. Isso mostra ainda um certo perfil medievalista no bom sentido do estudo. Pretendo continuar, se eu conseguir me diplomar em filosofia, os meus cursos livres na FSB. É uma instituição que me agrada muito. Sinto-me feliz por lá. Ontem fui com a Raquel pegar o meu histórico escolar, onde consta a matéria de Lógica I e Filosofia da Ciência. E foi surpresa para mim saber que fui o sexto colocado no seu vestibular de 2006. É como eu disse para a Raquel: ´também pudera, querida: eu e mais cinco concorrentes...rs...` E tenho dito...
Como digo: sou um homem curioso. Mas não sou esse curioso por ser curioso. Mas não vejo nada contra também. Longe estou de querer salvar a humanidade. Leiam Shakespeare e irão entender. Nem sou mais aquele mitômano que vive dizendo que o mundo é uma merda e que esses burgueses só querem saber de si -- enquanto vou à europa com o meu jatinho ou que esses escritores também burgueses dessa indústria cutural desprezam-nos (nós pobres coitados - escritores unde - que vivemos da subsistência de uns mecenas toscos e que o nosso ideário é a sarjeta e a rejeição do mundo e que advogamos somente os nossos livros nos sebos ou jogados às traças). Gosto de estudar e vejo e leio qualquer coisa. Leio de Drauzio Varella a Said, de Budismo a Foucault. E não venha o senhor me perguntar se assimilei alguma coisa... Não, meu senhor, não assimilei nada. Continuarei sim errando pelos meus caminhos. O que aprendi da vida, nos livros? Não sei! Juro ao senhor que não sei... Se tenho em casa livros para ostentar... Sim, e por que motivo eu não os teria? Tenho e creio que nunca os lerei... Deixo-os perdidos junto aos meus bricabraques para o meu deleite. Bricabraques! Ah, sim, senhor, creio que aprendi essa palavra... Posto já ser alguma coisa... Não senhor, denego em seguir os teus conselhos, Conselheiro Acácio (que também busquei em teus livros) -- quanto ao senhor, jovem poeta e escritor reconhecido, apraz-me tão somente o interesse pelo desconhecido... Ficarei por ora, se me permites, com aqueles velhos livros ali daquela minha velha estante...
Trabalho-Libelo naPUC-SP- Profa.Jeanne Marie Gagnebin - Nota: ZERO
‘Ó GRANDE DEUS, LIVRAI-ME DOS HIPÓCRITAS!’
‘Eles me vaiam, mas eu me aplaudo!’
“Enquanto se rebela esteticamente contra o estreito método de não deixar nada fora, o ensaio obedece a um motivo de ordem epistemológica ( erkenntniskritisch) . A concepção romântica do fragmento – como uma formação nem completa nem exaustiva do tema, mas que através de auto-reflexão vai avançando até o infinito – defende esse tema antiidealista no próprio seio do idealismo. Também no modo de expor, o ensaio não deve fazer como se ele tivesse deduzido o objeto e que dele nada mais restaria a dizer. É inerente à forma do ensaio a sua própria relativização: ela precisa compor-se de tal modo como se, a todo momento, pudesse interromper-se. Ele pensa aos solavancos e aos pedaços (er denkt in Brüchen), assim como a realidade é descontínua (brüchig); encontra a sua unidade através de rupturas (Brüche) e não à medida que as escamoteia (alisa: glättet). A unanimidade da ordem lógica engana quanto à essência antagônica daquilo que recobre. A descontinuidade é essencial ao ensaio; seu assunto é sempre um conflito suspenso.” (“O Ensaio como Forma” Adorno, Sociologia, org. G. Cohn, Trad. R..Fl. KOTHE, Col. ‘Grandes Cientistas Sociais”, Editora Ática, 1986, São Paulo, p.180).
Foi partindo, talvez, de um paradoxo, que eu me sento à escrivaninha e assento também os meus dois pés no chão e enceto, ou melhor, tento encetar uma reflexão acerca do que se possa chamar trabalho escolar ou pequena monografia. Isso, sem dúvida, coloca-me numa aporia sem precedentes, conquanto sabemos que uma aporia se dá menos numa escolha do sujeito diante de um objeto, que as aporias clássicas que algumas já conhecemos sobejamente.
Sugestões de trabalhos de fim de semestre, apontam-nos sempre alguns caminhos, sendo forçoso, pois, ter que fazer uma escolha entre esses quatro caminhos aqui, agora, apresentados, porquanto um possível descaminhar poderá levar-me a um abismo (Abgrund) acadêmico. Ou seja: ter que escolher e iniciar uma reflexão e tentar analisar, perquirir conceitos, metáforas e idéias principais. O que confesso não ser tarefa fácil. Sobretudo para mim, que sempre me vi nos descaminhos da escrita. E vi (uma ingenuidade minha?) na Escola de Frankfurt um colo. Um colo de Deus, como diria Nietzsche.
Mas o que, efetivamente, me faz soçobrar é menos essa incursão, embora sabendo não ser fácil, e mais tentar encontrar um Umweg, uma trilha por onde não me perder.
Desviar-me sem ser atropelado por uma avaliação mais rigorosa, que se prestasse ao método, à totalidade, ou o que poderemos denominar de um faro norteador, que tenta não se colocar como farol. Por isso vou fragmentando o meu espírito (Geist) nessas contradições. Escrever sobre o ensaio, mas não um ensaio; escrever sobre o fragmento, mas não escrever um fragmento; não me atribuir de qualquer método. Mas como, se todo método é caminho e caminho conduz-nos invariavelmente a qualquer ponto? E ainda assim trilhar seguro na nevasca que me impede de saber qual o farol que me espera.
Ir tateando, desviando dos atropelos da história, da coisa arraigada, sagrada e consagrada. Não usar frases desgastadas: ‘notadamente’, ‘o fator precípuo’, ‘com efeito’, ‘de maneira que’, ‘absolutamente necessário’ e por aí vai e não me desgastar também.
Manter-me inteiriço, porque um fragmento de mim, um fragmento de meu pensamento, não serviria absolutamente para nada, porque não chancelado por aquilo que a Escola de Frankfurt disse sempre abominar.
Eu não podendo de forma alguma preterir, protelar, prescindir de uma luz. Refletir cartesianamente? Ter os meus achaques intelectuais? Perfilar pelo meu suposto saber ‘enciclopédico’? Ou resistir? Comportar-me sempre como antítese?
Mas não uma antítese-potência que se quer ato; uma antítese-antítese que quer permanecer antítese tão somente. Uma antítese suspensa, fluida, relativizada. Dar os saltos feito um saltimbanco?
Solavancar, não tendo como ponto de apoio nem a alavanca de Arquimedes?
Saltar no abismo, mas não cair no abismo. Ignorar o faro e o farol que me apontam um caminho (ódos). Passar o sinal vermelho? Ou um sinal amarelo? Pensar aos saltos? Opor-me ao meu pensamento? Fazê-lo uma mercadoria? Uma moeda não se dá somente nas formas de notas metálicas ou ações, uma nota é uma debênture, e o meu pensamento sob o jugo e o meu pensamento no embate entre mercadoria ou não. Resistir ao ponto de equilíbrio e defenestrar a totalidade de um título?
Deixar de ser um barão pós-moderno? Um marquês do saber especializado? Um conde da especialização? Mas não seria tudo isso um mito de Tântalo? Seria perigoso inverter o mito de Tântalo? Afastar-me da água e dos manjares dos deuses?
Nos solavancos que dou, tento recuar, pondero, reflito, mas as palavras vão saltando antes desse meu salto suicida. As palavras pensam antes de eu pensar. E as palavras vão saltando como fragmentos, e fazem-me lembrar de idéias que a priori eu concordo, mas que as vejo somente e particularmente como a priori. Dá vontade de parar. Por que seguir se não há uma totalidade? Contentar-me com esse teco de pensar?
Mas a fragmentação também fragmenta, para quem está acostumado com uma música canônica ocidental.
Um serrote de Tom Zé fere os ouvidos, como um Pierrô Lunaire de Schönberg.
Mas quem terá ouvidos?
Mesmo os propugnadores, na certa, olvidarão tal fato e, como Ulisses, recorrerão aos tampa-tímpanos. Ouvir uma música incidental, dissonante, não é salutar.
Só haveria vida no nómos ocidental?
Só gostamos da música que conhecemos. É imperioso só tocar no toca-disco a cantilena que já vimos ouvindo. Não estamos dispostos a uma des-enarmonia. Toquemos para os músicos de plantão. Façamos a duração das notas: semibreve, mínima, semínimas, colcheia. O contraponto é perigoso. Requer-se uma melodia, um ritmo, um compasso. Um acidente sempre será perigoso.
Se não há regra, tudo é permitido. Pensamento sistemático, palavras de dúbio sentido. Seria como aquela expressão sobre Deus? Se não há Deus..... Mas se chego e paro: seria o fim ou uma estada? Um desencontro?
Como aqueles tropeiros-trôpegos que descansam os seus ginetes para se perderem mais à frente? Seria esse trabalho uma forma modesta? Seria possível estancar o perene momento?
Paro e penso. Sinto-me burlesco. As primeiras bridas ninguém quer quebrá-las. Discuti-las sim, até a sua exaustão. Mas não ousemos.
Ousemos somente até onde for permitido. Onde é permitido, é onde não me revolto: dentro dos quadrantes da permissão.
Falemos do que quisermos, desde que falemos com um certo pudor, um certo requinte. Poderemos ser díspares em nossos pensamentos; mas que obedeçamos às regras. O estabelecido. O fundamentado, mesmo que eu apregoe um des-fundamento.
Faz-se mister um Grundprinzip? Inserções de notas periféricas? E se não o fizer? Fundamentar o princípio?
Gargarejar com cepacol na boca e as cerdas das cordas vocais bem arejar com citações em grego, alemão, inglês (piegas)?
Que ninguém nos flagre!
Inventar uma nova forma; uma forma idealizada tão somente, fazer uma crítica aos sistemas totalitários, mas sem se afastar das colunas bem erigidas.
Após o discurso, retornemos todos, educadamente, aos nossos lares; obedientes e servis.
Estanco!
E corro com medo de encontrar aquele velho senhor, porque aquele senhor desferiria aquelas palavras impetuosas. E eu não quereria ouvi-las, porque não saberia responder.
Ou saberia?
“Ora, ora, meu caro! O senhor! Aqui!
sim, estou aqui...
Em um local mal afamado...
que eu saiba.....
Um homem que sorve essências, que se alimenta de ambrosia!
não de maneira alguma...permita-me...sinto-me bem aqui... apenas o senhor me reconheceu...além disso apraz-me o pensamento....de resto...entedia-me a dignidade....
Sim...sim...
sinto-me bem aqui...
Mas vejo o abismo....
seria o colo de Deus? mesmo assim julgo menos desagradável perder minhas insígnias...
Isso será burlesco...
mas antes quero ouvir Pierrô Lunaire...
Sim, o fascista considera de seu direito vingar-se nos diferentes, pois jamais pode admitir a sua própria fraqueza...a formulação Dialética negativa é um atentado contra a tradição...as formulações frankfurtianas representam a subversão do sentido consagrado da filosofia...invertem o hegelianismo...o ensaio não compartilha a regra do jogo da ciência e da teoria organizadas...
não dá mais para reaquecer as auréolas...a indústria cultural reproduz falsas auras...a arte como atividade lúdica e experimentação...a vida justa só pode ser socialmente justa...deixemos, meu caro senhor de totalidades...deixemos....estanco no Umweg...”
Bibliografia:
Livros, a vida, a dor, a esperança, conversas de bar,
leituras, aulas , pensar, pensar, a vida....a vida....
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Programa de Pós-Graduação em Filosofia – Mestrado
Disciplina: Filosofia das Ciências Humanas II
Profa. Dra. Jeanne Marie Gagnebin
Mestrando: Wilson Luques Costa
sampa/primavera2003
30/10/2003
‘Ó GRANDE DEUS, LIVRAI-ME DOS HIPÓCRITAS!’
‘Eles me vaiam, mas eu me aplaudo!’
“Enquanto se rebela esteticamente contra o estreito método de não deixar nada fora, o ensaio obedece a um motivo de ordem epistemológica ( erkenntniskritisch) . A concepção romântica do fragmento – como uma formação nem completa nem exaustiva do tema, mas que através de auto-reflexão vai avançando até o infinito – defende esse tema antiidealista no próprio seio do idealismo. Também no modo de expor, o ensaio não deve fazer como se ele tivesse deduzido o objeto e que dele nada mais restaria a dizer. É inerente à forma do ensaio a sua própria relativização: ela precisa compor-se de tal modo como se, a todo momento, pudesse interromper-se. Ele pensa aos solavancos e aos pedaços (er denkt in Brüchen), assim como a realidade é descontínua (brüchig); encontra a sua unidade através de rupturas (Brüche) e não à medida que as escamoteia (alisa: glättet). A unanimidade da ordem lógica engana quanto à essência antagônica daquilo que recobre. A descontinuidade é essencial ao ensaio; seu assunto é sempre um conflito suspenso.” (“O Ensaio como Forma” Adorno, Sociologia, org. G. Cohn, Trad. R..Fl. KOTHE, Col. ‘Grandes Cientistas Sociais”, Editora Ática, 1986, São Paulo, p.180).
Foi partindo, talvez, de um paradoxo, que eu me sento à escrivaninha e assento também os meus dois pés no chão e enceto, ou melhor, tento encetar uma reflexão acerca do que se possa chamar trabalho escolar ou pequena monografia. Isso, sem dúvida, coloca-me numa aporia sem precedentes, conquanto sabemos que uma aporia se dá menos numa escolha do sujeito diante de um objeto, que as aporias clássicas que algumas já conhecemos sobejamente.
Sugestões de trabalhos de fim de semestre, apontam-nos sempre alguns caminhos, sendo forçoso, pois, ter que fazer uma escolha entre esses quatro caminhos aqui, agora, apresentados, porquanto um possível descaminhar poderá levar-me a um abismo (Abgrund) acadêmico. Ou seja: ter que escolher e iniciar uma reflexão e tentar analisar, perquirir conceitos, metáforas e idéias principais. O que confesso não ser tarefa fácil. Sobretudo para mim, que sempre me vi nos descaminhos da escrita. E vi (uma ingenuidade minha?) na Escola de Frankfurt um colo. Um colo de Deus, como diria Nietzsche.
Mas o que, efetivamente, me faz soçobrar é menos essa incursão, embora sabendo não ser fácil, e mais tentar encontrar um Umweg, uma trilha por onde não me perder.
Desviar-me sem ser atropelado por uma avaliação mais rigorosa, que se prestasse ao método, à totalidade, ou o que poderemos denominar de um faro norteador, que tenta não se colocar como farol. Por isso vou fragmentando o meu espírito (Geist) nessas contradições. Escrever sobre o ensaio, mas não um ensaio; escrever sobre o fragmento, mas não escrever um fragmento; não me atribuir de qualquer método. Mas como, se todo método é caminho e caminho conduz-nos invariavelmente a qualquer ponto? E ainda assim trilhar seguro na nevasca que me impede de saber qual o farol que me espera.
Ir tateando, desviando dos atropelos da história, da coisa arraigada, sagrada e consagrada. Não usar frases desgastadas: ‘notadamente’, ‘o fator precípuo’, ‘com efeito’, ‘de maneira que’, ‘absolutamente necessário’ e por aí vai e não me desgastar também.
Manter-me inteiriço, porque um fragmento de mim, um fragmento de meu pensamento, não serviria absolutamente para nada, porque não chancelado por aquilo que a Escola de Frankfurt disse sempre abominar.
Eu não podendo de forma alguma preterir, protelar, prescindir de uma luz. Refletir cartesianamente? Ter os meus achaques intelectuais? Perfilar pelo meu suposto saber ‘enciclopédico’? Ou resistir? Comportar-me sempre como antítese?
Mas não uma antítese-potência que se quer ato; uma antítese-antítese que quer permanecer antítese tão somente. Uma antítese suspensa, fluida, relativizada. Dar os saltos feito um saltimbanco?
Solavancar, não tendo como ponto de apoio nem a alavanca de Arquimedes?
Saltar no abismo, mas não cair no abismo. Ignorar o faro e o farol que me apontam um caminho (ódos). Passar o sinal vermelho? Ou um sinal amarelo? Pensar aos saltos? Opor-me ao meu pensamento? Fazê-lo uma mercadoria? Uma moeda não se dá somente nas formas de notas metálicas ou ações, uma nota é uma debênture, e o meu pensamento sob o jugo e o meu pensamento no embate entre mercadoria ou não. Resistir ao ponto de equilíbrio e defenestrar a totalidade de um título?
Deixar de ser um barão pós-moderno? Um marquês do saber especializado? Um conde da especialização? Mas não seria tudo isso um mito de Tântalo? Seria perigoso inverter o mito de Tântalo? Afastar-me da água e dos manjares dos deuses?
Nos solavancos que dou, tento recuar, pondero, reflito, mas as palavras vão saltando antes desse meu salto suicida. As palavras pensam antes de eu pensar. E as palavras vão saltando como fragmentos, e fazem-me lembrar de idéias que a priori eu concordo, mas que as vejo somente e particularmente como a priori. Dá vontade de parar. Por que seguir se não há uma totalidade? Contentar-me com esse teco de pensar?
Mas a fragmentação também fragmenta, para quem está acostumado com uma música canônica ocidental.
Um serrote de Tom Zé fere os ouvidos, como um Pierrô Lunaire de Schönberg.
Mas quem terá ouvidos?
Mesmo os propugnadores, na certa, olvidarão tal fato e, como Ulisses, recorrerão aos tampa-tímpanos. Ouvir uma música incidental, dissonante, não é salutar.
Só haveria vida no nómos ocidental?
Só gostamos da música que conhecemos. É imperioso só tocar no toca-disco a cantilena que já vimos ouvindo. Não estamos dispostos a uma des-enarmonia. Toquemos para os músicos de plantão. Façamos a duração das notas: semibreve, mínima, semínimas, colcheia. O contraponto é perigoso. Requer-se uma melodia, um ritmo, um compasso. Um acidente sempre será perigoso.
Se não há regra, tudo é permitido. Pensamento sistemático, palavras de dúbio sentido. Seria como aquela expressão sobre Deus? Se não há Deus..... Mas se chego e paro: seria o fim ou uma estada? Um desencontro?
Como aqueles tropeiros-trôpegos que descansam os seus ginetes para se perderem mais à frente? Seria esse trabalho uma forma modesta? Seria possível estancar o perene momento?
Paro e penso. Sinto-me burlesco. As primeiras bridas ninguém quer quebrá-las. Discuti-las sim, até a sua exaustão. Mas não ousemos.
Ousemos somente até onde for permitido. Onde é permitido, é onde não me revolto: dentro dos quadrantes da permissão.
Falemos do que quisermos, desde que falemos com um certo pudor, um certo requinte. Poderemos ser díspares em nossos pensamentos; mas que obedeçamos às regras. O estabelecido. O fundamentado, mesmo que eu apregoe um des-fundamento.
Faz-se mister um Grundprinzip? Inserções de notas periféricas? E se não o fizer? Fundamentar o princípio?
Gargarejar com cepacol na boca e as cerdas das cordas vocais bem arejar com citações em grego, alemão, inglês (piegas)?
Que ninguém nos flagre!
Inventar uma nova forma; uma forma idealizada tão somente, fazer uma crítica aos sistemas totalitários, mas sem se afastar das colunas bem erigidas.
Após o discurso, retornemos todos, educadamente, aos nossos lares; obedientes e servis.
Estanco!
E corro com medo de encontrar aquele velho senhor, porque aquele senhor desferiria aquelas palavras impetuosas. E eu não quereria ouvi-las, porque não saberia responder.
Ou saberia?
“Ora, ora, meu caro! O senhor! Aqui!
sim, estou aqui...
Em um local mal afamado...
que eu saiba.....
Um homem que sorve essências, que se alimenta de ambrosia!
não de maneira alguma...permita-me...sinto-me bem aqui... apenas o senhor me reconheceu...além disso apraz-me o pensamento....de resto...entedia-me a dignidade....
Sim...sim...
sinto-me bem aqui...
Mas vejo o abismo....
seria o colo de Deus? mesmo assim julgo menos desagradável perder minhas insígnias...
Isso será burlesco...
mas antes quero ouvir Pierrô Lunaire...
Sim, o fascista considera de seu direito vingar-se nos diferentes, pois jamais pode admitir a sua própria fraqueza...a formulação Dialética negativa é um atentado contra a tradição...as formulações frankfurtianas representam a subversão do sentido consagrado da filosofia...invertem o hegelianismo...o ensaio não compartilha a regra do jogo da ciência e da teoria organizadas...
não dá mais para reaquecer as auréolas...a indústria cultural reproduz falsas auras...a arte como atividade lúdica e experimentação...a vida justa só pode ser socialmente justa...deixemos, meu caro senhor de totalidades...deixemos....estanco no Umweg...”
Bibliografia:
Livros, a vida, a dor, a esperança, conversas de bar,
leituras, aulas , pensar, pensar, a vida....a vida....
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Programa de Pós-Graduação em Filosofia – Mestrado
Disciplina: Filosofia das Ciências Humanas II
Profa. Dra. Jeanne Marie Gagnebin
Mestrando: Wilson Luques Costa
sampa/primavera2003
30/10/2003
Monday, January 22, 2007
Livros são recortes. Registros mais ou menos importantes ou não de um autor- consagrados por ele mesmo, pela sua editora, ou pelos seus amigos ou nem consagrados por ninguém. Mas não deixam de ser livros, porque estão numa essência que lhes denotam as características-essências (ousías) de um livro. Livro até agora ( porque também está mudando) é mormente constituído de papéis, páginas e textos. Muitos, depois da era Joyceana, nem isso. Houve também os palimpsestos, pergaminhos e outros. Um livro pode ter somente palavras sem nenhum significado (?), pode também ter um arrazoado de intenções ou poemas - pode ser uma coletânea de rascunhos que se adensam em forma de livros. Um livro de Arnaldo Antunes pode ser diferente de um livro de Ferreira Gullar ou Murilo Mendes, como um livro de Murilo Mendes mais diferente de um outro, e esse outro diferente de outro e outro, embora livros. Livro é às vezes menos literatura e mais artes plásticas. Os textos podem ser - e por que não - suportes, continentes, e não conteúdos. É preciso notar também que como o conceito invadiu as artes plásticas e a filosofia a literatura -- a literatura também sofreu esse tipo de entropia. Os textos sendo suportes de intenções estéticas. O que ocorre no entanto é que vemos e vimos o livro como auto-ajuda. É evidente também que toda proposta estética tem lá o seu télos. Mas isso não quer dizer que nos textos você poderá sempre e sempre encontrar o seu fármacon. Eu, por exemplo, tenho livros em casa como se fossem verdadeiros quadros. Deixo-os num lugar privilegiado em minha estante. Na verdade, não estou cultuando o que ali está escrito. Cultuo menos o autor epigrafado. Cultuo, outrossim, o ilustrador incógnito. O problema, a meu ver, é vermos, apesar de abominarmos essa conceituação, os livros como auto ajuda. Como algo panacéico. Algo que transmutará as nossas vidas nas primeiras dez linhas. Um livro pode ter infindas leituras. Infindas propostas. Nem sempre atrás de um escritor está um escritor verdadeiro. Um livro pode ser uma obra de arte. Pode ser um novo tipo de instalação. E esse museu pode ser sim a sua própria casa. Sempre me recordo de um frase minha, quando me perguntavam se um livro poderia mudar o mundo -- e eu sempre respondia: ´Claro que pode, é só você colocar uma bomba de nitroglicerina dentro.` Um livro antes de tentar mudar o leitor deveria se perguntar para que ele mesmo veio... Às vezes, veio mesmo para nada... É só você ler a maioria dos livros nas estantes de sua biblioteca ou dos seus alfarrábios...E tenho dito...
Sunday, January 21, 2007
O HOMEM CURIOSO
Estou voltando aos braços da minha curiosidade. Tenho me enfronhado novamente no meu quarto com um monte de livros. Logo agora que a casa passou por uma reforma. Graças ao empenho feminino de minha irmã e minha mãe. Levo uma gama de livros e fico perdido. Nem sempre leio tudo. Minha mochila até estourou ontem. Estou aqui na Raquel e tem lá na mochila um Freud (iniciação) falando de sonhos, pesadelos, neuroses ( iniciação apenas - longe daquelas fabulações acadêmicas - procurar compreender somente - um de Jung - opúsculo que li muitas vezes, mas que é um sumário bem legal -- um sobre o cérebro desses de liqüidação que paguei se muito 10 contos - mas que explica todo o funcionamento do cérebro - só que esse ainda não iniciei). Só ontem cheguei a ler um dos primeiros passos do Rubem Alves sobre religião - de lá pulei pro Durkheim - que fico em dúvida quanto à pronúncia - pois não é alemão, mas francês - li sobre a religião - outro do Antonio Cândido sobre a nossa formação na literatura - não li tudo evidentemente - mas estão lá no meu quarto me aguardando - andei lendo esses dias também sobre economia - aluma coisa apenas e de um que gosto - talvez por ser aquariano como eu: Schumpeter. Mas diz coisas legais. Vou direto no dicionário que adquiri há muitos anos. Estou querendo entender a mente humana. Suas vertigens, obsessões. É incrível como a religião é um pouco inconsistente, se levarmos a fundo. Mas não é por isso que não vamos crer. Ontem no livro do Rubem Alves li aquela famosa frase do Hume que não julga nada de valor se não for lógico-matemático. Mas ninguém liga pra isso. Faço nos meus livros coisa que não se deve fazer: dialogo com os livros, anoto, risco. Hoje mesmo li um capítulo sobre o que pensa Freud sobre os pesadelos, e o livro todo sublinhado e datado: tal e tal de 1992. Amanhã, vou tirar xerox de um capítulo de Fichte dos pensadores no qual aborda sobre o Princípio da Identidade. Tive algumas aulas na PUC, mas não conheço tão bem assim Fichte. Prefiro tirar xerox, porque vou lendo e riscando. É incrível como estou adquirindo esse hábito tosco. Talvez por influência das universidades e do curso de grego, onde acompanhávamos a tradução do professor pelas xeroxes. Depois da leitura desse capítulo de Fichte, irei escrever alguam coisa aqui nesse blogue, dialogando sobre o que penso com o PZ. Como não sei se ainda escreverei um opúsculo ou não, vou fazendo as minhas anotações --- pequenos ensaios, que um dia eu talvez reúna. Mas como ninguém se interessa. Escrevo para quem se interessar daqui uns anos. Uma coisa acontece comigo: quando escrevo, emagino escrevendo para alguém daqui uns 5o ou 100 anos. Vou registrando para esse suposto meu leitor do futuro --- que espero que seja tão e quanto curioso como eu, que procure se interessar por tudo -- mesmo por um reles teclador como eu. Não é menos incrível o meu regozijo em não ser lido pelos contemporâneos também, isso me livra de certas censuras, maneiras de evitar adversários. Só acredito no homem que escreve para ninguém -- que faça um trato somente com a sua livre e indesejável consciência. E tenho dito...
Estou voltando aos braços da minha curiosidade. Tenho me enfronhado novamente no meu quarto com um monte de livros. Logo agora que a casa passou por uma reforma. Graças ao empenho feminino de minha irmã e minha mãe. Levo uma gama de livros e fico perdido. Nem sempre leio tudo. Minha mochila até estourou ontem. Estou aqui na Raquel e tem lá na mochila um Freud (iniciação) falando de sonhos, pesadelos, neuroses ( iniciação apenas - longe daquelas fabulações acadêmicas - procurar compreender somente - um de Jung - opúsculo que li muitas vezes, mas que é um sumário bem legal -- um sobre o cérebro desses de liqüidação que paguei se muito 10 contos - mas que explica todo o funcionamento do cérebro - só que esse ainda não iniciei). Só ontem cheguei a ler um dos primeiros passos do Rubem Alves sobre religião - de lá pulei pro Durkheim - que fico em dúvida quanto à pronúncia - pois não é alemão, mas francês - li sobre a religião - outro do Antonio Cândido sobre a nossa formação na literatura - não li tudo evidentemente - mas estão lá no meu quarto me aguardando - andei lendo esses dias também sobre economia - aluma coisa apenas e de um que gosto - talvez por ser aquariano como eu: Schumpeter. Mas diz coisas legais. Vou direto no dicionário que adquiri há muitos anos. Estou querendo entender a mente humana. Suas vertigens, obsessões. É incrível como a religião é um pouco inconsistente, se levarmos a fundo. Mas não é por isso que não vamos crer. Ontem no livro do Rubem Alves li aquela famosa frase do Hume que não julga nada de valor se não for lógico-matemático. Mas ninguém liga pra isso. Faço nos meus livros coisa que não se deve fazer: dialogo com os livros, anoto, risco. Hoje mesmo li um capítulo sobre o que pensa Freud sobre os pesadelos, e o livro todo sublinhado e datado: tal e tal de 1992. Amanhã, vou tirar xerox de um capítulo de Fichte dos pensadores no qual aborda sobre o Princípio da Identidade. Tive algumas aulas na PUC, mas não conheço tão bem assim Fichte. Prefiro tirar xerox, porque vou lendo e riscando. É incrível como estou adquirindo esse hábito tosco. Talvez por influência das universidades e do curso de grego, onde acompanhávamos a tradução do professor pelas xeroxes. Depois da leitura desse capítulo de Fichte, irei escrever alguam coisa aqui nesse blogue, dialogando sobre o que penso com o PZ. Como não sei se ainda escreverei um opúsculo ou não, vou fazendo as minhas anotações --- pequenos ensaios, que um dia eu talvez reúna. Mas como ninguém se interessa. Escrevo para quem se interessar daqui uns anos. Uma coisa acontece comigo: quando escrevo, emagino escrevendo para alguém daqui uns 5o ou 100 anos. Vou registrando para esse suposto meu leitor do futuro --- que espero que seja tão e quanto curioso como eu, que procure se interessar por tudo -- mesmo por um reles teclador como eu. Não é menos incrível o meu regozijo em não ser lido pelos contemporâneos também, isso me livra de certas censuras, maneiras de evitar adversários. Só acredito no homem que escreve para ninguém -- que faça um trato somente com a sua livre e indesejável consciência. E tenho dito...
Saturday, January 20, 2007
Tenho muita dificuldade, por mais que eu tente, em crer. Mas, por outro lado, não suporto não crer. Não me apraz a descrença. O problema é que sou cético interiormente. Isso porque as coisas vêm do homem. É como disse-me ontem um rapaz estudioso de religião: estudar demais não é bom, porque acaba quase que eliminando o sagrado. A crença seria como um tipo de ´ignorância salutar.´ Estive lendo um pouco sobre religiões, e elas falam da hierofania. Mas a hierofania numa análise filosófica, acabaria incidindo em discussões metafísicas profundas. A cultura do homem pode passar como entrave à fé. Acreditar é não questionar. É acreditar e fim. E é o que estou atualmente tentanto fazer.
Temos que encarar de frente
Na verdade o homem tem medo, porque não consegue dominar o aleatório. Por isso subjaz o embate entre ciência e religião. A religião surge onde a ciência fracassa e vice-versa. Quando o homem conseguir dominar todo o sistema onde estará inserido, ele não terá mais razão para crer. A religião sempre dominará, enquanto a ciência não conseguir sistematizar a totalidade do mundo: seus eventos futuros e suas idiossincrasias. Se querem um exemplo: atentem para o triste episódio do metrô. Quando aquela senhora -que infelizmente veio a falecer - iria supor que estaria fadada ao seu destino? Foi o imponderável (o aleatório) que a venceu. Que costumamos denominar de destino. Não conheço nada de física quântica, mas vou procurar entender um pouco. Se fôssemos analisar como num jogo de xadrez todas as possibilidades do dia -- nem um bunker nós montaríamos. A vida só é possível graças ao esquecimento. E é engraçado como nesse mundo neo ou pós-moderno valorizamos em demasia a nossa memória. Ás vezes penso: será que não seria melhor se fôssemos mais esquecediços? Mas viver sem memória também seria, a meu ver, o maior dos fracassos...
Na verdade o homem tem medo, porque não consegue dominar o aleatório. Por isso subjaz o embate entre ciência e religião. A religião surge onde a ciência fracassa e vice-versa. Quando o homem conseguir dominar todo o sistema onde estará inserido, ele não terá mais razão para crer. A religião sempre dominará, enquanto a ciência não conseguir sistematizar a totalidade do mundo: seus eventos futuros e suas idiossincrasias. Se querem um exemplo: atentem para o triste episódio do metrô. Quando aquela senhora -que infelizmente veio a falecer - iria supor que estaria fadada ao seu destino? Foi o imponderável (o aleatório) que a venceu. Que costumamos denominar de destino. Não conheço nada de física quântica, mas vou procurar entender um pouco. Se fôssemos analisar como num jogo de xadrez todas as possibilidades do dia -- nem um bunker nós montaríamos. A vida só é possível graças ao esquecimento. E é engraçado como nesse mundo neo ou pós-moderno valorizamos em demasia a nossa memória. Ás vezes penso: será que não seria melhor se fôssemos mais esquecediços? Mas viver sem memória também seria, a meu ver, o maior dos fracassos...
Por que o homem necessita simbolizar as coisas? Essa pergunta não sou eu só quem faço... Muitos já a fizeram, e Camus também a fez, parece-me, e de maneira bem literária. Criamos aquilo que chamamos de cultura. E isso é bom. Mas é ruim também. Quando criamos cultura, estamos de certo modo, contrariando a physis. Estamos querendo criar uma outra estética que se pretende diferente da que recebemos e mais divina. Naquilo que consideramos como avanço, avançamos;- mas também por outro lado retrocedemos. O problema da simbolização é que ela ganha contornos que fogem ao nosso controle. Perde, quero dizer, a essência primeira de quem a criou. Isso incide de uma certa forma em problemas semânticos. Por que o homem cria a religião, os mitos...? Por que cria forças externas à sua própria força, que a natureza lhe deu? O homem tem medo! Dizem que o homem é o único ser que tem consciência da sua morte, do seu fim, de sua efemeridade... A linguagem muito tem nos ajudado, mas se prestarmos também a atenção, veremos que a linguagem em muito também contribuiu para o desentendimento dos homens. Comemos, evidentemente, melhor. Dormimos melhor. Casamos melhor. Dilatamos mais o período de vida. O problema é saber, por que o homem tem medo? O medo do homem gerou, de uma certa forma, aquilo que chamamos de cultura. Se não fosse o medo, ainda estaríamos comendo uns aos outros, como faziam, parece-me, os tupinambás. Sem o medo não teríamos internet, televisão etc... Mas não teríamos também essa coisa que se chama medo... Como me disse um colega por aí: o medo cria, mas também destrói... Mas a pergunta é: por que tememos o desconhecido? Ah, como seria bom, se pudéssemos ser privados de certos pensamentos... Ser um beija-flor na floresta do medo...
Friday, January 19, 2007
De perto ninguém é mesmo normal - semiótica, as minhas manias e os símbolos
Hoje fui levar a minha mãe no servidor público. São as famosas dores que vão nos prostrando e que vão um dia sumir e que por fim fincam raízes. Eu também estou precisando ir ao médico. Mas protelo, protelo. Lembro-me daquela máxima que diz: ´estou morrendo mais rapidamente com a ajuda de meus médicos.´Mas não é isso: é o temor, talvez, de se descobrir fadado a alguma doença mais séria. E nessa minha idade, tudo, tudo é possível. Vivemos no fio da navalha. Mas temos que aprender a encarar. Pelo menos é isso que todos os manuais nos ensinam. Desde Marco Aurélio, Schopenhauer, Bobbio e Sêneca. Mas eu confesso que tenho sido reticente quanto a isso. E quanto aos médicos, acho bem melhor louvá-los do que descartá-los. De uns anos para cá, venho fazendo uso de agendas -- nas quais faço as minhas anotações para pagamentos de parcelas, bem como anotações de estudos, efemérides de parentes e amigos - o que aliás vem diminuindo - e pequenos problemas, sintomas, comigo ou com algum parente. E venho percebendo que janeiro é um mês meio desencadeador de sintomas depressivos. Eu mesmo não tenho parada. Vejo um dvd, vou para a internet, tento ler um pouco, andar -- mas sinto-me um pouco down. Não sei se é só comigo. Hoje mesmo no servidor vi novamente inúmeras pessoas com problemas. Vi uma negra belíssima com transtornos psiquiátricos - (consoante o seu marido -- um cara inteligentíssimo, autodidata da história das religiões e história geral, um rapaz que você vendo de primeira você não acredita)... O ser humano é muito confuso mesmo. Eu mesmo que me julgo um cara supernormal, apesar de arrogar aqui nesse blog, às vezes, perco o controle sobre a minha mente. Perder controle é não dominar símbolos, associações -- que vão gerando certos medos, descontroles, paúras... Mas não é esse medo do valentão aí. Nada contra ninguém... Não!... Ficamos estudando muito filosofia, artes, etc --- mas nos esquecemos -- pelo que me parece -- de estudar a mente humana. Eu com a ajuda da Raquel estou tentando apreciar o budismo - mais precisamente o budismo que a Raquel vem seguindo. Mas estou no começo. E estou ainda um pouco perdido, num sincretismo que me foge, misturando budismo com cristianismo Sempre fui um cara muito confuso com as religiões. Nasci numa família de católicos não praticantes. Já cheguei, na minha juventude, a negar o catolicismo -- mas sempre respeitei Jesus Cristo. E não me perguntem por quê... Depois que me separei então o respeito aguçou-se e foi uma mistura de niilismo com crença que me deixava desnorteado mesmo. Namorei também uma carola. E em casa há inúmeras imagens de Jesus. Inclusive no meu quarto. Mas não rezo o pai-nosso. Só faço o sinal da cruz. Todavia tenho uma relação mórbida com os símbolos cristãos, que invariavelmente me ocorrem mais nos pesadelos. Por exemplo: não posso ver ataúdes (veja que até deneguei o nome mais popular), flores, coroas, cruz, cores roxas e amarelas. Parece-me que tudo isso levar-me-á a maus presságios. Faço associações simbólicas que vão me deixando exasperado, confuso e perdido. Tento me livrar e a coisa enlouquece. Sei que tudo isso poderá ser sintomas patológicos de alguma enfermidade. Já li alguma coisa a respeito. Mas o problema da mente é que não é igual a uma doença do corpo. Por exemplo: levo uma vida supernormal. Sou meio tímido para quem não me conhece. Mas sou muito alegre e engraçado. Pra você ter uma idéia, danço, quando estou com a Raquel, aqueles forrós, samba. Sou muito brincalhão mesmo. Mas são bem distintas, creio, as enfermidades entre psiché e soma. A dor da alma é uma dor mais metaforizada. Que apavora! Sabe aquele soneto do Augusto dos Anjos cristalizado? É uma dor menos dolorida no sentido real da dor. Por isso recusamos em aceitar que estamos enfermos naquele sentido em que estamos acostumados. Houve uma época em que cheguei a ler um pouco de Foucault e Guatari -- muito pouco mesmo. E até que concordava com eles a respeito da loucura -- que em grego é mania. Mas hoje vejo que não é somente o sistema político e a sociedade que forjam aqueles que são chamados de ´loucos´por muito - que acho um exagero. Mas o que quero dizer é que é um problema de uma disfunção qualquer. Ou até metafísico-ontológico. É evidente que todos esses símbolos foram se construindo ao longo dos tempos. Mas por exemplo: associo caixão com morte. Se estou vendo Milton Neves, mudo de canal, quando começa no meu entender com aquela hybris toda - enterrando times, colegas. Creio que sistemas políticos quase nada teriam a ver com isso. Nem sei também se Foucault e Guatari pensavam assim. Não sei o que me levou ao medo exacerbado da morte, através desses símbolos. E é engraçado como o tema morte massificou-se. É só dar uma piscadela nos jornais, net, tv, ou outros suportes. Mas alguns símbolos, especialmente para mim, representam e de maneira nefasta essa morbidez lenta da minha alma que acabo de relatar. Com efeito, o homem doente da alma é doente aqui, nos EUA, Portugal, Espanha, Cuba ou Nicarágua. É um nosotopos muito além de onde poderíamos supostamente imaginar... Por isso que sempre digo: por mais que eu viaje, nunca saio de mim...
# É evidente que há uma conotação histórico-diacrônica. O que representa, na verdade, uma cruz para quem nunca viu uma cruz numa sociedade por nós desconhecida? Isso é apenas um relato das entranhas. E através desse relato, expondo e expondo-me, talvez eu consiga, por fim, me achar.
Hoje fui levar a minha mãe no servidor público. São as famosas dores que vão nos prostrando e que vão um dia sumir e que por fim fincam raízes. Eu também estou precisando ir ao médico. Mas protelo, protelo. Lembro-me daquela máxima que diz: ´estou morrendo mais rapidamente com a ajuda de meus médicos.´Mas não é isso: é o temor, talvez, de se descobrir fadado a alguma doença mais séria. E nessa minha idade, tudo, tudo é possível. Vivemos no fio da navalha. Mas temos que aprender a encarar. Pelo menos é isso que todos os manuais nos ensinam. Desde Marco Aurélio, Schopenhauer, Bobbio e Sêneca. Mas eu confesso que tenho sido reticente quanto a isso. E quanto aos médicos, acho bem melhor louvá-los do que descartá-los. De uns anos para cá, venho fazendo uso de agendas -- nas quais faço as minhas anotações para pagamentos de parcelas, bem como anotações de estudos, efemérides de parentes e amigos - o que aliás vem diminuindo - e pequenos problemas, sintomas, comigo ou com algum parente. E venho percebendo que janeiro é um mês meio desencadeador de sintomas depressivos. Eu mesmo não tenho parada. Vejo um dvd, vou para a internet, tento ler um pouco, andar -- mas sinto-me um pouco down. Não sei se é só comigo. Hoje mesmo no servidor vi novamente inúmeras pessoas com problemas. Vi uma negra belíssima com transtornos psiquiátricos - (consoante o seu marido -- um cara inteligentíssimo, autodidata da história das religiões e história geral, um rapaz que você vendo de primeira você não acredita)... O ser humano é muito confuso mesmo. Eu mesmo que me julgo um cara supernormal, apesar de arrogar aqui nesse blog, às vezes, perco o controle sobre a minha mente. Perder controle é não dominar símbolos, associações -- que vão gerando certos medos, descontroles, paúras... Mas não é esse medo do valentão aí. Nada contra ninguém... Não!... Ficamos estudando muito filosofia, artes, etc --- mas nos esquecemos -- pelo que me parece -- de estudar a mente humana. Eu com a ajuda da Raquel estou tentando apreciar o budismo - mais precisamente o budismo que a Raquel vem seguindo. Mas estou no começo. E estou ainda um pouco perdido, num sincretismo que me foge, misturando budismo com cristianismo Sempre fui um cara muito confuso com as religiões. Nasci numa família de católicos não praticantes. Já cheguei, na minha juventude, a negar o catolicismo -- mas sempre respeitei Jesus Cristo. E não me perguntem por quê... Depois que me separei então o respeito aguçou-se e foi uma mistura de niilismo com crença que me deixava desnorteado mesmo. Namorei também uma carola. E em casa há inúmeras imagens de Jesus. Inclusive no meu quarto. Mas não rezo o pai-nosso. Só faço o sinal da cruz. Todavia tenho uma relação mórbida com os símbolos cristãos, que invariavelmente me ocorrem mais nos pesadelos. Por exemplo: não posso ver ataúdes (veja que até deneguei o nome mais popular), flores, coroas, cruz, cores roxas e amarelas. Parece-me que tudo isso levar-me-á a maus presságios. Faço associações simbólicas que vão me deixando exasperado, confuso e perdido. Tento me livrar e a coisa enlouquece. Sei que tudo isso poderá ser sintomas patológicos de alguma enfermidade. Já li alguma coisa a respeito. Mas o problema da mente é que não é igual a uma doença do corpo. Por exemplo: levo uma vida supernormal. Sou meio tímido para quem não me conhece. Mas sou muito alegre e engraçado. Pra você ter uma idéia, danço, quando estou com a Raquel, aqueles forrós, samba. Sou muito brincalhão mesmo. Mas são bem distintas, creio, as enfermidades entre psiché e soma. A dor da alma é uma dor mais metaforizada. Que apavora! Sabe aquele soneto do Augusto dos Anjos cristalizado? É uma dor menos dolorida no sentido real da dor. Por isso recusamos em aceitar que estamos enfermos naquele sentido em que estamos acostumados. Houve uma época em que cheguei a ler um pouco de Foucault e Guatari -- muito pouco mesmo. E até que concordava com eles a respeito da loucura -- que em grego é mania. Mas hoje vejo que não é somente o sistema político e a sociedade que forjam aqueles que são chamados de ´loucos´por muito - que acho um exagero. Mas o que quero dizer é que é um problema de uma disfunção qualquer. Ou até metafísico-ontológico. É evidente que todos esses símbolos foram se construindo ao longo dos tempos. Mas por exemplo: associo caixão com morte. Se estou vendo Milton Neves, mudo de canal, quando começa no meu entender com aquela hybris toda - enterrando times, colegas. Creio que sistemas políticos quase nada teriam a ver com isso. Nem sei também se Foucault e Guatari pensavam assim. Não sei o que me levou ao medo exacerbado da morte, através desses símbolos. E é engraçado como o tema morte massificou-se. É só dar uma piscadela nos jornais, net, tv, ou outros suportes. Mas alguns símbolos, especialmente para mim, representam e de maneira nefasta essa morbidez lenta da minha alma que acabo de relatar. Com efeito, o homem doente da alma é doente aqui, nos EUA, Portugal, Espanha, Cuba ou Nicarágua. É um nosotopos muito além de onde poderíamos supostamente imaginar... Por isso que sempre digo: por mais que eu viaje, nunca saio de mim...
# É evidente que há uma conotação histórico-diacrônica. O que representa, na verdade, uma cruz para quem nunca viu uma cruz numa sociedade por nós desconhecida? Isso é apenas um relato das entranhas. E através desse relato, expondo e expondo-me, talvez eu consiga, por fim, me achar.
